PRÓLOGO
Antes
de qualquer nascimento tudo o que contemplamos é o completo e total silêncio.
No profundo do ventre materno o silêncio e a escuridão reinam de maneira
sufocante para cada ser vivente. Respiramos líquido aminiótico e nos
alimentamos do que nossa mãe nos alimenta.
Chega
a luz e um pequeno apocalipse acontece.
O
nascer.
Mas
tudo aquilo estava bem distante de ser um útero materno, estava bem distante do
calor de uma mãe para com o filho, estava bem distante da aconchegante
escuridão e do sapiente silêncio interno
de uma mãe. Os longos cabos de alimentação e as fracas luzes do ambiente
implicavam em um assombrosa penumbra.
Irmãos e irmãs, todos dispostos lado a lado em grandes câmaras com
oxigênio líquido e nutrientes. Cada setor possuía cerca de cinquenta indivíduos
em fase embrionária. Aqueles seriam os trabalhadores do novo mundo.
O som metálico dos passos apressados naquele
corredor escuro chamaria a atenção de guardas atentos. Mas era um domingo e
toda a cidade estava em festa.
Ele
precisaria escolher apenas um individuo.
O
homem viu-se refletido no vidro daquela câmara encubatória. “R-777” sete era o
seu número da sorte. O homem se abaixa, abre o painel de controle da câmara e
ajusta o oxigênio em máxima potência.
-
Nos veremos daqui há alguns anos – o homem fala para a pequena massa de carne
em formação naquele vidro cheio de líquido.
Logo,
a escuridão volta a reinar na sala.
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