quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

PRÓLOGO

           
Antes de qualquer nascimento tudo o que contemplamos é o completo e total silêncio. No profundo do ventre materno o silêncio e a escuridão reinam de maneira sufocante para cada ser vivente. Respiramos líquido aminiótico e nos alimentamos do que nossa mãe nos alimenta.
            Chega a luz e um pequeno apocalipse acontece.
            O nascer.
            Mas tudo aquilo estava bem distante de ser um útero materno, estava bem distante do calor de uma mãe para com o filho, estava bem distante da aconchegante escuridão  e do sapiente silêncio interno de uma mãe. Os longos cabos de alimentação e as fracas luzes do ambiente implicavam em um assombrosa penumbra.  Irmãos e irmãs, todos dispostos lado a lado em grandes câmaras com oxigênio líquido e nutrientes. Cada setor possuía cerca de cinquenta indivíduos em fase embrionária. Aqueles seriam os trabalhadores do novo mundo.
             O som metálico dos passos apressados naquele corredor escuro chamaria a atenção de guardas atentos. Mas era um domingo e toda a cidade estava em festa.
            Ele precisaria escolher apenas um individuo.
            O homem viu-se refletido no vidro daquela câmara encubatória. “R-777” sete era o seu número da sorte. O homem se abaixa, abre o painel de controle da câmara e ajusta o oxigênio em máxima potência.
            - Nos veremos daqui há alguns anos – o homem fala para a pequena massa de carne em formação naquele vidro cheio de líquido.
            Logo, a escuridão volta a reinar na sala.
           

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